18 DE MAIO
DIA NACIONAL DO COMBATE AO ABUSO
E À
EXPLORAÇÃO SEXUAL
INFANTO-JUVENIL
A data remonta aos idos de 1973, quando
a menina Araceli Crespo, de apenas
9 anos, foi espancada, estuprada e
morta em Vitória/ES, causando comoção
nacional, tanto que vinte e sete anos depois do hediondo
crime foi sancionada a Lei n.° 9.970, de
17.05.2000, instituindo o dia 18 de
maio como o Dia Nacional de Combate
ao Abuso e à Exploração Sexual
de Crianças e Adolescentes.
Consoante noticiou o jornal O POVO,
do Ceará, veiculado no dia 02.05.2003 (...) era
uma sexta-feira. Araceli saiu da escola mais cedo a
pedido da mãe, a boliviana Lola, que mandara
a menina entregar um envelope a um grupo de rapazes.
Dentro, havia drogas. E ao chegar ao edifício
Apolo, ainda em construção, onde eles
estariam já drogados, a menina foi violentada.
O jornalista José Louzeiro decidiu acompanhar
o caso. Em 1976, lançou um livro, hoje esgotado
após quatro edições. Foi censurado,
processado duas vezes , mas nada encontraram que o incriminasse.
Ele mexia com as mais importantes famílias do
Espírito Santo. Os dois principais acusados do
crime pertencem a elas.
O Livro Araceli, Meu Amor foi lançado
quando o ministro da Justiça do governo Ernesto
Geisel era Armando Falcão, a quem o maranhense
Louzeiro se refere como "O único cearense
que não tem carater". Segundo o escritor,
o então ministro censurou a publicação
por considerá-la altamente imoral.
"A polícia entrava montada a cavalos em
livrarias do Rio para recolher o livro", lembra
o autor ao O POVO. Louzeiro conta que
as famílias dos principais acusados do crime
são "donas" do Espírito Santo
até hoje. E Armando Falcão tinha "uma
relação estreita" com uma delas.
Louzeiro narra fatos chocantes, entre eles o de que
legistas identificaram requintes de crueldade na morte
da menina. "O bico dos peitinho e a vagina foram
lacerados a dentados. Quer dizer, eles morderam a menina
toda antes de matarem. Ela caiu num ninho de canibais.
E essas eram as pessoas que Armando Falcão defendia".
Um dos relatos mais impactantes feito por Louzeiro
trata da identificação do corpo da menina
no Instituto Médico Legal (IML). "Depois
de estuprada jogaram ácido sobre ela. O corpo
de Araceli foi encontrado dias depois, no matagal nos
fundos de um hospital, por um garoto que caçava
passarinho.
O rosto da menina ficou desfigurado, corroído
pelo ácido, dificultando o reconhecimento. Mas
Araceli tinha um cachorro a quem dera o nome de Radar.
Quando o pai de Araceli, o eletricista Gabriel, foi
ao IML, levou o cão com ele. O cachorro se adiantou
e avançou adoidado pelo meio do salão".
Louzeiro conta que, antes de ser mostrado o corpo para
que o pai da menina identificasse se era o da filha,
o cachorro começou a arranhar um dos gavetões
do IML. Aberto o gavetão, surpreendentemente
estava ali o corpo de Araceli. Gabriel só o reconheceu
porque a menina tinha um sinal na ponta de um dedo do
pé esquerdo. Araceli costumava dizer que tinha
escolhido o nome de Radar para o cachorro porque ele
a encontraria em qualquer lugar que ela estivesse.
O caso Araceli não foi ou será
exceptivo, sabido, mesmo, que em alguns rincões
do país o abuso sexual é cultural, via
de regra, decorrente de incesto ou de relação
de dependência social e/ou afetiva intrafamiliar,
daí porque o grito de tantos outros inocentes
continuará a ecoar no silêncio, em face
da invisibilidade do problema, permeado de tabus, destituído
de indicadores estatístico e premido pelo sofrimento
pessoal das vítimas, tal qual: gravidez indesejada,
traumas físicos e psi
cológicos, aborto e, não raras vezes,
suicídio, cujo o enfrentamento responsável
está a desafiar a mobilização contextualizada
de uma pluralidade de atores multiprofissionais, laborando
em sistema de rede de atendimento interprofissional,
para assegurar proteção integra à
criança e ao adolescente vítima de abuso
e/ou exploração sexual, posto que de antanho
já se apregoou (...) os crimes sexuais se alimentam
do silêncio das vítimas, se nutrem da omissão
ou da falência pública para lidar com a
questão e se fortalecem na muda cumplicidade
social.
César Augusto Souza Pereira
Juiz de Direito
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