Sinto-me no dever de esclarecer os
fatos que me levaram a dar voz de prisão em flagrante
ao presidente do sindicato dos funcionários da
Justiça do Amapá, para que não
reste nenhuma dúvida do acerto de minha decisão,
e para que nenhum dos senhores se emprenhe por informações
deturpadas a respeito do que aconteceu.
Na manhã de hoje recebi em meu gabinete o senhor
Aldenir Rodrigues Pantoja, presidente da associação
de moradores do bairro Perpétuo Socorro, que
veio tratar de assunto relacionado a uma atividade que
estamos desenvolvendo em conjunto objetivando a redução
da violência doméstica e de rua naquele
bairro.
Quando terminamos de conversar, ele me perguntou se
eu poderia tirar uma certidão para si, haja vista
que tentou entrar na sala da distribuição
do fórum e foi impedido por causa dos grevistas.
Imediatamente tentei telefonar para a chefa daquele
setor, Cláudia Régia, mas o ramal estava
ocupado.
Convidei o senhor Aldenir a vir comigo até o
setor de distribuição, e me dirigi com
ele até uma porta que fica nos fundos da distribuição
(ao lado da sala dos advogados), porque havia um banco
de madeira, colocado pelos grevistas bloqueando a entrada
principal da distribuição, ou seja, impedindo
o povo, e nós juízes, de entrar pela porta
da frente daquele setor (a de vidro).
Chegando lá a porta estava fechada. Do lado
de fora estavam o presidente do sindicato e mais dois
homens que francamente nunca vi pelo fórum de
Macapá. Bati três vezes até que
abriram. Antes que abrissem, porém, cheguei a
perguntar ao presidente do sindicato porque a porta
estava fechada e ele ficou calado. Só depois
percebi que os dois cidadãos que estavam com
ele afastaram-se do local quando me viram querer entrar.
Abriram, enfim, a porta dos fundos. Ao entrar perguntei
às moças que estavam dentro da sala quem
havia fechado o recinto, já que a porta só
fecha por dentro. Diga-se que tinha muita gente lá
dentro trabalhando, as funcionárias, é
evidente, e algumas delas com assento em mesa localizada
bem próximo da porta dos fundos por onde entrei.
Tornei a perguntar quem havia fechado o recinto e nenhuma
respondeu.Percebi que havia algo de muito estranho,
porque certa tensão dominava os funcionários
que estavam do lado de dentro. Logo entendi o porquê.
O presidente do sindicato estava bem na porta, olhando
para todos lá dentro.
Dirigi a palavra a ele, mais uma vez, e lhe perguntei
quem tinha fechado o recinto, e ele, até então
falando manso, respondeu que estavam de greve, que sabe
como é que é, etc, e que não sabia
quem tinha fechado a porta...
No meu ponto de vista estava ocorrendo ali um crime
de ação penal pública, porque havia
homens na porta de trás da distribuição,
mantendo-a fechada, vigiando para que ninguém
entrasse no local, impedindo os que querem trabalhar
de exercerem suas atividades normais que é o
atendimento público, e o comportamento tenso
das moças que estavam lá dentro ao me
verem, dava-me a certeza de que elas estavam sim sendo
coagidas a manter a porta fechada. Se não denunciaram
o "fechador de portas" é porque ele
estava bem ali diante delas, observando-as para ver
quem ia "dedurar".
E o que me faz afirmar isto? É simples. Se elas
estivessem tensas por algum outro motivo que não
a presença do presidente do sindicato que olhava
para todas elas, não estariam trabalhando como
de fato estavam. Estariam, isto sim, participando da
greve lá fora. A única explicação
para que umas olhassem para as outras, tensas, sem arriscar
a apontar o responsável pelo trancamento de um
setor inteiro é o fato de que, por medo de represálias
dos perturbadores, por coação dos grevistas,
preferiram silenciar.
A instrução criminal vai provar que foi
isto que aconteceu. Pelo que vi, portanto, afirmo que
o crime em andamento era contra a organização
do trabalho, mais precisamente aquele tipificado no
art. 197, inciso II, do Código Penal.
Assim, diante deste cenário, falei para a Cláudia
Régia atender o cidadão que precisava
de uma certidão e, ato contínuo, como
ninguém apontou o responsável pela obstrução
do povo às dependências da Justiça,
falei para todas as funcionárias que estavam
trabalhando ali dentro, especialmente para a Cláudia
Régia, que se alguém fechasse a porta
novamente era para comunicar o fato, porque isto era
crime e seria preso o responsável.
Foi assim que o sindicalista falou – agora não
tão manso como inicialmente - que foi ele quem
trancou a porta, que eu podia prendê-lo e que
ele continuaria a fechar os recintos, porque era presidente
do sindicato. Enquanto falava isto fechava novamente
o botão da porta para mostrar a todos o seu poder.
O seu comportamento só me fez ter a certeza de
que estava exercendo pressão nas moças.
Senti-me desrespeitado, desobedecido diante da ordem
que dei de manter abertas as portas, e desafiado na
presença de vários servidores. Sinceramente
não poderia jamais deixar minha autoridade, a
dignidade de meu cargo, ser colocada em cheque como
foi. Agi como agiria qualquer outro magistrado cônscio
de seus deveres.
Não tive dúvidas. "Prendi, e prendi
bem prendido". Dei-lhe voz de prisão em
flagrante sim, e sai logo para meu gabinete a fim de
providenciar a força pública para levá-lo
daqui, porque ele já estava no microfone insuflando
os grevistas contra minha pessoa, ofendendo-me moralmente,
fazendo-se de vítima, já que era o fato
que queria para chamar atenção para o
seu movimento politiqueiro esvaziado.
A bem da verdade quero esclarecer que na semana passada
ocorreu um episódio bem parecido com o de hoje.
Desta feita na central de mandados. Fui até o
local tratar dos mandados do júri com a Patrícia,
e quando tentei entrar na sala a porta também
estava fechada. Enquanto eu dizia aos presentes que
fechar a porta para outros não trabalhar é
crime, entrou o oficial de justiça Marco Celso,
o atual presidente da associação dos serventuários,
e travou o botão para ninguém ter acesso
aquele recinto.
Esse meirinho está participando ativamente da
greve. Não estava no interior da central de mandados.
Estava, isto sim, do lado de fora e, avisado de que
a porta estava aberta, entrou para fechá-la novamente.
Chamei o servidor para dizer-lhe que a conduta era criminosa
e ele saiu berrando (para chamar a atenção)
dizendo que estava em greve, que era sindicalizado,
e foi direto para o microfone falar sei lá o
quê, porque também não fiquei para
ouvir. Comuniquei o episódio à Diretoria
do Fórum e ao Presidente do TJAP, mas, ao contrário
do que os grevistas andaram propalando, não prendi
o Marco Celso, porque tanto a Diretora do Fórum
quanto o presidente do TJAP disseram que a situação
estava sendo resolvida. Pelo visto não tem adiantado
a boa vontade da Diretora do Fórum e do Presidente
do TJAP em solucionar com os grevistas todas estas questões.
Após este episódio, para evitar qualquer
contratempo com minha pessoa, mandei chamar o presidente
do sindicato que atendeu o chamado, e, diante da Kátia,
minha chefe de secretaria do júri, ponderei com
ele que a atitude do Marco Celso não tinha sido
correta, que era criminosa, e pedi para interceder junto
a seus comandados a fim de que a Justiça e a
minha porta não fossem fechadas por irresponsáveis
ou mal avisados.
Diante de minha chefe de secretaria o presidente do
sindicato garantiu-me que não fecharia o júri,
mas adiantou que continuariam fechando as outras portas,
que eles estavam desempenhando seu papel e era para
nós desempenharmos o nosso, e, despedindo-se,
saiu de minha sala.
Senhores, são estes os fatos. Assumo inteiramente
até o final os meus atos, vou até o fim
agora, e estou seguro de que agi dentro da lei. Não
vou me debater com grevistas que não querem trabalhar,
mas a noção básica de cidadania
não está sendo observada por eles, pois
o direito de pararem termina no exato momento que o
meu direito de querer trabalhar começa.
Ao contrário do bom censo e da cidadania, eles
estão "piquetando" as portas, impedindo
os funcionários de trabalhar e o povo de vir
até a Justiça. Hoje mesmo um júri
foi adiado, porque as testemunhas foram abordadas ao
chegarem no fórum e os grevistas fizeram todas
voltarem para suas casas ao argumento de que não
haveria expediente. A população está
acreditando nisto e sendo forçada a voltar para
casa. Os fatos estão registrados na minha ata
de julgamento.
Espero que se encontre logo uma solução,
porque juízes estão sendo ofendidos moralmente
quando se arriscam a ir ao banco do fórum, por
exemplo. É inconcebível que isto esteja
acontecendo dentro de nossa casa. Juízes sendo
desrespeitados, desacatados. Ou será que ninguém
ainda se tocou que pela lei se não agirmos prontamente
ao presenciarmos infrações penais corremos
o risco de ser taxados de prevaricadores (319) ou omissos
(LCP, art. 66)? Será que desaprendemos que perturbar
o trabalho ou o sossego alheio com gritaria, algazarra,
ou abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos
é contravenção penal (art. 42)?
Está na hora de dar um basta aos abusos, aos
desmandos, pois se o problema deles é com o Governador
ou com o presidente do TJAP, que se plantem na frente
do Palácio do Setentrião ou do Tribunal
de Justiça para protestar. Se querem parar que
parem bem longe do nosso átrio. Mas se hoje estes
grevistas estão dentro do fórum é
porque se tem permitido. E se eles ficam lá dentro
de nosso pátio sem trabalhar, nos agredindo com
palavras, é só para tumultuar o ambiente,
para nos provocar, impedir nós outros de trabalhar
e o povo de vir resolver seus conflitos aqui, numa atitude
bem clara de que extrapolam do direito para atingir
seus objetivos.
(*) João Guilherme Lages Mendes é Juiz
de Direito
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