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Desembargador Raimundo Vales

   
 
Catingueiro a Laço
   
 


CATINGUEIRO A LAÇO

- Corre Nonato, pega a porfora que o catingueiro está pego... ligeiro que esse trem é danado para escapuli de laço.
Era meu irmão Valdir, que chegava da roça correndo, esbaforido, e avisava que a armadilha que a gente tinha armado na véspera dera certo e havia pegado um veado.

Larguei o Guimarães Rosa que estava lendo e entrei rápido em casa para pegar a espingarda de meu pai. Vareta na mão, peguei o bornal de seu Juca. Achei o chumbo, a pólvora e o material de bucha. Cadê a espoleta?

- Valdir, não tem espoleta...

- Com'é que faz?

- Uai, vamos cortar no colim, matar no cacete.

- Catingueiro é bicho valente, avança na gente.

- Mas não está amarrado no laço?

- Vam'ver.

Passei o colim na pedra. Fizemos dois bons cacetes de pau de goiaba e tomamos o caminha do roça. Não era longe de casa, coisa de meia hora, a pé. Ansiosos, fizemos o percurso em tempo recorde, praticamente na carreira. Para dois meninos de nove (eu) e doze anos (meu irmão) era uma aventura e tanto. Seu Juca, nosso pai, quando chegasse do Gurupi haveria de ficar orgulhoso de nós, sem falar na macia carne do veado, a guarnecer nossa cozinha de pobre por mais de semana. O domingo prometia. Éramos só alegria.

Armar o laço fora idéia de meu irmão. Andando pela roça, vimos que o catingueiro andava comendo a ponta de nosso feijão trepador. A parte mais para a beira da mata, onde a verdura era mais viçosa, estava praticamente rapada. Identificamos a trilha do bicho. Chega estava fundo. Ele vinha do interior da mata fechada, rodeava um pé de tinguí e seguia beirando a parte mais alta da cerca de tranqueira até um ponto onde o pau de cima havia caído e saltava para dentro da roça. Estavam ali, claras, as marcas de seus finca-pés. Decidimos armar o laço logo após o salto do
veado para dentro da roça, no centro da trilha. Como catingueiro é bicho escabreado e desconfiado, imaginamos que colocando a armadilha nessa posição ele só a perceberia quando já fosse tarde. Firmado o laço de meiabraça na ponta de uma taboca, amarramos sua ponta no pé de uma macaúba.

O catingueiro estava lá, humilhado, na ponta do laço. Ao nos ver chegando, fincou pé até onde dava. Caiu. Levantou. Caiu de novo. Fitounos, balançou a cabeça e assombrou: fu-óoooooo-pi, fu-óoooooo-pi, fuóoooooo- pi. Era um macho adulto, gordo, chifre de palmo. O laço estava apertado entre as duas mãos e a pá. Não havia risco de escapulir. A corda era nova e forte e tinha só uns quatro metros de folga até onde esta amarrada firme. O bicho tinha pouco espaço de manobra.

- Com'é que a gente faz Valdir?

- Sei não, Nonato.

- A porfora tivesse no jeito, dava quase para encostar no sovaco.

- Só se a gente esperasse o papai chegar... Con'da'fé ela traz espoleta do Gurupi.

- Rum'bora pegar o bicho, rapá. Estamos em dois. Vou por um lado e tu vai pelo outro. Vam'ver no que dá.

- Uai, rum'bora Valdir.

Caminhei no rumo do veado, balançando-me todo para força-lo a avançar em mim. O plano era que meu irmão, que era maior e mais forte e corajoso, se aproveitasse enquanto ele estava ocupado comigo para golpeálo por trás com o cacete.

- Hê, bicho fêi, vem me pegar...

O catingueiro permaneceu parado, estanque. Olhava-me fixamente, como que hipnotizado. Bati os pés do chão, balancei mais forte. Gritei. Nada. Ganhei confiança. Cheguei mais perto. Repeti a gangorria. Nada de novo. Voltei-me para meu irmão e dei uma de valentão, distraindo-me por um segundo:

- Veado cagão Valdir, vamos chegar o cacete nele!

- ? ! ...

- Corre, Nonato, senão o bicho te pega.

- Meu Deus... Ui...

O bicho partira para cima, no segundo que olhei para meu irmão. Na arrancada de surpresa, escorreguei e caí. Fui alcançado pelo veado, que passou a me pisar, tentando usar os chifres. Perigo. Arrastei-me pelo chão em velocidade, de quatro, pelando de medo. Ainda deu para escutar o cacete comendo, os gritos do Valdir e do bicho: póf, póf; toma fi'duma'égua; bé, beeeeé, beeeeeeeeeeeeeeeé.

Passado o perigo ainda pude ver o catingueiro estribuchando. Meu irmão estava sentado no chão, ao lado, com o fôlego curto. No semblante, um ar de surpresa e medo, logo transformado em alegria e sorriso. Sorrisos. Gargalhadas. Rimos muito de tudo.

- Não te falei, Nonato, que essa raça de bicho é valente e avança na gente?

- Parente de cabrito... facilitar, é capaz de matar um.

Cortamos logo o saco do catingueiro para não empestear a carne. Tiramos o couro. Levamos para casa, em quatro caminhadas. Cada uma com um quarto. Carneamos. Salgamos. Almoçamos veado frito na banha de porco. Delícia. Seu Juca achou um sucesso e riu muito da façanha de seus "meninos". Foi assunto por muitos anos. É assunto até hoje, como se vê.

Desembargador RAIMUNDO VALES

Goiânia, setembro de 2006.
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