CATINGUEIRO A LAÇO
- Corre Nonato, pega a porfora que o catingueiro está pego...
ligeiro que esse trem é danado para escapuli de laço.
Era meu irmão Valdir, que chegava da roça correndo,
esbaforido, e avisava que a armadilha que a gente tinha armado na véspera
dera certo e havia pegado um veado.
Larguei o Guimarães Rosa que estava lendo e entrei rápido em
casa para pegar a espingarda de meu pai. Vareta na mão, peguei o bornal
de seu Juca. Achei o chumbo, a pólvora e o material de bucha. Cadê a
espoleta?
- Valdir, não tem espoleta...
- Com'é que faz?
- Uai, vamos cortar no colim, matar no cacete.
- Catingueiro é bicho valente, avança na gente.
- Mas não está amarrado no laço?
- Vam'ver.
Passei o colim na pedra. Fizemos dois bons cacetes de pau de
goiaba e tomamos o caminha do roça. Não era longe de casa, coisa de meia
hora, a pé. Ansiosos, fizemos o percurso em tempo recorde, praticamente na
carreira. Para dois meninos de nove (eu) e doze anos (meu irmão) era uma
aventura e tanto. Seu Juca, nosso pai, quando chegasse do Gurupi haveria
de ficar orgulhoso de nós, sem falar na macia carne do veado, a guarnecer
nossa cozinha de pobre por mais de semana. O domingo prometia. Éramos
só alegria.
Armar o laço fora idéia de meu irmão. Andando pela roça,
vimos que o catingueiro andava comendo a ponta de nosso feijão trepador.
A parte mais para a beira da mata, onde a verdura era mais viçosa, estava
praticamente rapada. Identificamos a trilha do bicho. Chega estava fundo.
Ele vinha do interior da mata fechada, rodeava um pé de tinguí e seguia
beirando a parte mais alta da cerca de tranqueira até um ponto onde o pau
de cima havia caído e saltava para dentro da roça. Estavam ali, claras, as
marcas de seus finca-pés. Decidimos armar o laço logo após o salto do
veado para dentro da roça, no centro da trilha. Como catingueiro é bicho
escabreado e desconfiado, imaginamos que colocando a armadilha nessa
posição ele só a perceberia quando já fosse tarde. Firmado o laço de meiabraça
na ponta de uma taboca, amarramos sua ponta no pé de uma
macaúba.
O catingueiro estava lá, humilhado, na ponta do laço. Ao nos
ver chegando, fincou pé até onde dava. Caiu. Levantou. Caiu de novo. Fitounos,
balançou a cabeça e assombrou: fu-óoooooo-pi, fu-óoooooo-pi, fuóoooooo-
pi. Era um macho adulto, gordo, chifre de palmo. O laço estava
apertado entre as duas mãos e a pá. Não havia risco de escapulir. A corda
era nova e forte e tinha só uns quatro metros de folga até onde esta
amarrada firme. O bicho tinha pouco espaço de manobra.
- Com'é que a gente faz Valdir?
- Sei não, Nonato.
- A porfora tivesse no jeito, dava quase para encostar no
sovaco.
- Só se a gente esperasse o papai chegar... Con'da'fé ela traz
espoleta do Gurupi.
- Rum'bora pegar o bicho, rapá. Estamos em dois. Vou por um
lado e tu vai pelo outro. Vam'ver no que dá.
- Uai, rum'bora Valdir.
Caminhei no rumo do veado, balançando-me todo para força-lo
a avançar em mim. O plano era que meu irmão, que era maior e mais forte e
corajoso, se aproveitasse enquanto ele estava ocupado comigo para golpeálo
por trás com o cacete.
- Hê, bicho fêi, vem me pegar...
O catingueiro permaneceu parado, estanque. Olhava-me
fixamente, como que hipnotizado. Bati os pés do chão, balancei mais forte.
Gritei. Nada. Ganhei confiança. Cheguei mais perto. Repeti a gangorria. Nada
de novo. Voltei-me para meu irmão e dei uma de valentão, distraindo-me por
um segundo:
- Veado cagão Valdir, vamos chegar o cacete nele!
- ? ! ...
- Corre, Nonato, senão o bicho te pega.
- Meu Deus... Ui...
O bicho partira para cima, no segundo que olhei para meu
irmão. Na arrancada de surpresa, escorreguei e caí. Fui alcançado pelo
veado, que passou a me pisar, tentando usar os chifres. Perigo. Arrastei-me
pelo chão em velocidade, de quatro, pelando de medo. Ainda deu para
escutar o cacete comendo, os gritos do Valdir e do bicho: póf, póf; toma
fi'duma'égua; bé, beeeeé, beeeeeeeeeeeeeeeé.
Passado o perigo ainda pude ver o catingueiro estribuchando.
Meu irmão estava sentado no chão, ao lado, com o fôlego curto. No
semblante, um ar de surpresa e medo, logo transformado em alegria e
sorriso. Sorrisos. Gargalhadas. Rimos muito de tudo.
- Não te falei, Nonato, que essa raça de bicho é valente e
avança na gente?
- Parente de cabrito... facilitar, é capaz de matar um.
Cortamos logo o saco do catingueiro para não empestear a
carne. Tiramos o couro. Levamos para casa, em quatro caminhadas. Cada
uma com um quarto. Carneamos. Salgamos. Almoçamos veado frito na
banha de porco. Delícia. Seu Juca achou um sucesso e riu muito da façanha
de seus "meninos". Foi assunto por muitos anos. É assunto até hoje, como
se vê.
Desembargador RAIMUNDO VALES
Goiânia, setembro de 2006.
3
|