Ouço
falar com freqüência: “vou contar um
causo”.
Este termo é muito empregado, no meio rural
do sul do país. Em nossa Amazônia, usamos
a palavra caso.
Quem de nós não tem um caso para contar?
Eu mesmo, como bom “caboco”, tenho inúmeros,
alguns até já publicados.
Há um interessante sobre o qual falarei agora.
Quando era Juiz na Comarca de Chaves, costumava visitar
todas as localidades sob minha jurisdição,
fazendo casamentos, registros, inscrições
eleitorais etc.... Daí, nasceu-me a idéia
do nome “itinerante” que apliquei no Juizado
deste Estado.
Participava, também, dos festejos próprios
de cada localidade e das memoráveis festas de
aniversários de muitos de seus habitantes.
Certa vez fui convidado para participar dos festejos
comemorativos dos quinze anos de uma jovem, numa fazenda
do Marajó. Festa considerada boa naquela região,
dura pelo menos, três dias e três noites.
A comida é desregrada, chegando-se a matar pelo
menos um boi por dia e, se necessário, alguns
outros, além de porcos, patos e galinhas. Bebida
é quanta se conseguir beber.
Os convidados chegavam naquela festa com maleta nas
mãos ou nos lombos dos cavalos, que continha
uma rede e várias mudas de roupas. Havia um barracão
reservado para a armação das redes que,
inclusive, acomodavam os que se excediam na bebida.
Durante a festa, alguns dançarinos, saiam do
baile, tomavam banho, trocavam de roupas, perfumavam-se
e regressavam ao salão.
Em lugares em que a navegação é
possível, utilizavam muito os barcos que chegavam,
normalmente superlotados.
Na festa que ora narro, não era possível
a navegação.
Caminhei o dia todo, a pé, para ali chegar
Cheguei no último dia na “boca da noite”.
A recepção nem precisa ser mencionada,
pois, além do amigo chegava o Magistrado, digno
do maior respeito de todos.
Por ser juiz, deveria dançar, pelo menos duas
partes.
Meia noite! Os festejos foram interrompidos. Pensei
com meus botões, que iam tocar a valsa, na aparelhagem
que animava a festa. Observei que todos saiam do terreiro
onde dançavam e se deslocavam para a casa grande,
construída sobre esteios de mais de dois metros
de altura e onde se chega através da escada que
lhe dá acesso. É ela assim edificada para
evitar que, no inverno, quando as águas chegam,
seja ela alagada.
Embora sem saber para que, subi a escada e entrei na
casa. Ao entrar na ampla sala, vi várias pessoas
reunidas á frente de um santuário de madeira
com a imagem de uma santa, envolta por duas fitas, se
não me engano de cor azul.
Duas “cabocas” de idade avançada
cantavam uma ladainha em latim quase escorreito que,
forçosamente tinham decorado: “Virgem prudentíssima,
orai pro nobis, orai pro nobis, Virgem dulcissima, orai
pro nobis, orai pro nobis...”, com a participação
de todos nas respostas.
Terminada a ladainha, percebi que todos me olhavam,
sem que eu entendesse o porque disso. Um vereador que
estava ao meu lado cotucou o meu braço e só
então entendi que, como principal convidado,
deveria ser o primeiro a beijar as fitas que adornavam
a imagem. Cumprir o ritual. Desci e dirigi-me novamente
ao terreiro, onde dancei com a aniversariante parte
da valsa dos quinze anos.
São coisas nossas e fazem parte da tradição
caboca jamais vou esquecer.
Des. GILBERTO PINHEIRO
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