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Desembargador Gilberto Pinheiro

   
 
A Ladainha
   
 

Ouço falar com freqüência: “vou contar um causo”.

Este termo é muito empregado, no meio rural do sul do país. Em nossa Amazônia, usamos a palavra caso.

Quem de nós não tem um caso para contar?

Eu mesmo, como bom “caboco”, tenho inúmeros, alguns até já publicados.

Há um interessante sobre o qual falarei agora.

Quando era Juiz na Comarca de Chaves, costumava visitar todas as localidades sob minha jurisdição, fazendo casamentos, registros, inscrições eleitorais etc.... Daí, nasceu-me a idéia do nome “itinerante” que apliquei no Juizado deste Estado.

Participava, também, dos festejos próprios de cada localidade e das memoráveis festas de aniversários de muitos de seus habitantes.

Certa vez fui convidado para participar dos festejos comemorativos dos quinze anos de uma jovem, numa fazenda do Marajó. Festa considerada boa naquela região, dura pelo menos, três dias e três noites.

A comida é desregrada, chegando-se a matar pelo menos um boi por dia e, se necessário, alguns outros, além de porcos, patos e galinhas. Bebida é quanta se conseguir beber.

Os convidados chegavam naquela festa com maleta nas mãos ou nos lombos dos cavalos, que continha uma rede e várias mudas de roupas. Havia um barracão reservado para a armação das redes que, inclusive, acomodavam os que se excediam na bebida. Durante a festa, alguns dançarinos, saiam do baile, tomavam banho, trocavam de roupas, perfumavam-se e regressavam ao salão.

Em lugares em que a navegação é possível, utilizavam muito os barcos que chegavam, normalmente superlotados.

Na festa que ora narro, não era possível a navegação.

Caminhei o dia todo, a pé, para ali chegar

Cheguei no último dia na “boca da noite”. A recepção nem precisa ser mencionada, pois, além do amigo chegava o Magistrado, digno do maior respeito de todos.

Por ser juiz, deveria dançar, pelo menos duas partes.

Meia noite! Os festejos foram interrompidos. Pensei com meus botões, que iam tocar a valsa, na aparelhagem que animava a festa. Observei que todos saiam do terreiro onde dançavam e se deslocavam para a casa grande, construída sobre esteios de mais de dois metros de altura e onde se chega através da escada que lhe dá acesso. É ela assim edificada para evitar que, no inverno, quando as águas chegam, seja ela alagada.

Embora sem saber para que, subi a escada e entrei na casa. Ao entrar na ampla sala, vi várias pessoas reunidas á frente de um santuário de madeira com a imagem de uma santa, envolta por duas fitas, se não me engano de cor azul.

Duas “cabocas” de idade avançada cantavam uma ladainha em latim quase escorreito que, forçosamente tinham decorado: “Virgem prudentíssima, orai pro nobis, orai pro nobis, Virgem dulcissima, orai pro nobis, orai pro nobis...”, com a participação de todos nas respostas.

Terminada a ladainha, percebi que todos me olhavam, sem que eu entendesse o porque disso. Um vereador que estava ao meu lado cotucou o meu braço e só então entendi que, como principal convidado, deveria ser o primeiro a beijar as fitas que adornavam a imagem. Cumprir o ritual. Desci e dirigi-me novamente ao terreiro, onde dancei com a aniversariante parte da valsa dos quinze anos.

São coisas nossas e fazem parte da tradição caboca jamais vou esquecer.


Des. GILBERTO PINHEIRO

 
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